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Por que as casas perdem valor no Japão (e o terreno não)

No Japão, um princípio rege todo o valor imobiliário: o edifício se deprecia com a idade até quase nada em 20 a 30 anos, enquanto o terreno mantém (e às vezes ganha) valor. Uma casa de madeira está totalmente amortizada em 22 anos; o que você compra depois disso é o chão embaixo dela. Entender essa lógica de terreno contra edifício é a chave para nunca pagar demais e para escolher os ativos que vão segurar o valor com o tempo.

Residential towers in Chuo-ku, Tokyo, seen from the Rainbow Bridge
Foto: xegxef · CC0

Terreno e edifício: a regra que rege o valor no Japão

No Ocidente dizemos “uma casa”; no Japão, pensa-se sempre em dois ativos separados: o tochi (tochi, o terreno, o chão) e o tatemono (tatemono, a estrutura, o edifício). O preço anunciado de uma casa unifamiliar, uma kodate (一戸建て, casa unifamiliar), nunca é mais do que uma soma: valor do terreno + valor do edifício. Essa distinção não é acadêmica: ela decide tudo, do preço que você deveria pagar até o que vai recuperar na revenda.

A regra cabe em uma linha: no Japão, o edifício se deprecia, o terreno permanece. Ao contrário de boa parte do Ocidente, onde uma bela casa antiga costuma valorizar, um edifício japonês perde valor de forma mecânica, ano após ano, até não valer nada no papel. Na direção oposta, nas cidades disputadas o terreno segue escasso e caro. O comprador estrangeiro que ignora essa divisão corre o risco de pagar preço de imóvel novo por um ativo que derrete ou, ao contrário, de enxergar as pechinchas que os japoneses conhecem bem.

Essa lógica sustenta boa parte dos nossos outros conselhos: explica por que o imóvel novo perde 10-20 % na entrega, por que as casas vazias (akiya, akiya) às vezes são vendidas só pelo terreno, e por que um lote bem localizado costuma ser o melhor ativo. Para montar a base de qualquer compra, comece pelo nosso guia completo para comprar um imóvel no Japão.

Por que o edifício se deprecia até quase zero

Quatro forças se combinam para corroer o valor de um edifício japonês.

1. Envelhecimento físico (keinen rekka)

O keinen rekka (経年劣化, desgaste pelo passar do tempo) de uma casa de madeira (o material dominante) é real: clima úmido, terremotos, tufões, cupins. O mercado precificou uma vida útil curta e a codificou na lei tributária pela vida útil legal, o taiyō nensū (耐用年数, período legal de depreciação). Sobre esse ponto fiscal preciso, veja nosso artigo dedicado à depreciação de imóveis no Japão.

2. Obsolescência sísmica

Cada revisão do código antissísmico torna o estoque antigo menos desejável. A grande linha divisória é junho de 1981: antes dela, a norma antiga kyū-taishin (kyū-taishin); depois, a nova norma shin-taishin (shin-taishin, nova norma de resistência sísmica), bem mais segura. Um edifício antigo é descontado e mais difícil de revender: tratamos disso no nosso guia sobre a norma sísmica de 1981.

3. O culto ao novo e o “scrap and build”

Culturalmente, o comprador japonês prefere o novo ou o quase novo. Muitas casas antigas são compradas para serem demolidas e reconstruídas: você paga então apenas pelo chão. É o famoso modelo “scrap and build”.

Vida útil do edifício por estrutura

EstruturaVida útil fiscal (taiyō nensū)Valor de mercado do edifício perto de zero por volta de
Madeira (mokuzō, mokuzō)22 anos20-25 anos
Aço leve (tekkotsu, 鉄骨造)19-34 anos (conforme a espessura)30-40 anos
Concreto armado (tekkin konkurīto, 鉄筋コンクリート)47 anos45-60 anos (melhor conservado)

Guarde isto: para o mercado, uma casa de madeira com mais de 25 anos costuma ter um edifício que vale quase zero. Isso não é necessariamente um mau negócio: significa apenas que você está comprando terreno em primeiro lugar.

Ao contrário do que muita gente supõe, essa convenção nada tem a ver com a quebra de 1991: explicamos o que a bolha imobiliária japonesa de fato explica sobre os preços de hoje, e o que ela não explica.

Por que o terreno, ao contrário, mantém o valor

Diante do edifício que se desgasta, o tochi (o chão) é um ativo não reproduzível. Nas cidades disputadas ele é escasso, comprimido pela geografia montanhosa do Japão e sustentado pela atração das metrópoles: pessoas e empregos se concentram em Tóquio, Osaka, Nagoia e Fukuoka. É ali que o valor do terreno se mantém, ou até sobe.

Duas referências oficiais permitem acompanhar esse valor do terreno:

  • O rosenka (rosenka, valor do terreno por via pública), publicado todo ano pela agência tributária (NTA, Kokuzei-chō): base do imposto sobre herança e doação, e um excelente barômetro do chão rua a rua.
  • O chika kōji (chika kōji, preço do terreno publicado), divulgado pelo Ministério do Território, Infraestrutura, Transportes e Turismo (MLIT, Kokudo Kōtsū-shō): os preços oficiais de referência, disponíveis livremente no sistema de informação fundiária.

A nuance decisiva: nem todo terreno é igual

Cuidado com uma lição falsa: “o terreno mantém o valor” vale em mercados tensionados. No interior, o terreno também se deprecia, às vezes com força, empurrado pelo despovoamento. A taxa de imóveis vazios passou de 13 % no país inteiro na pesquisa habitacional do governo (e-Stat), com bolsões rurais muito mais altos. É todo o sentido da demografia aplicada ao imobiliário: o valor do terreno segue a acessibilidade (uma estação a 20-30 minutos, comércio por perto). Para um panorama região por região, veja nossa análise dos preços dos imóveis no Japão em 2026.

Decompor um preço: quanto de terreno, quanto de edifício?

Como preço = terreno + edifício, saber decompor um anúncio é um reflexo de especialista. Três fontes dão a você a parte do terreno:

  1. A área do lote × o rosenka local (ajustado, já que o rosenka vale cerca de 80 % do preço de mercado).
  2. O valor venal: kotei shisanzei hyōkagaku (kotei shisan-zei hyōka-gaku, a base do imposto predial), que já separa terreno e edifício. É ele que comanda o cálculo do imposto predial.
  3. O simples bom senso sobre a idade: quanto mais velha a casa, mais a parte do edifício tende a zero.

Veja a divisão típica terreno/edifício de uma casa de madeira à medida que envelhece (ordens de grandeza; varia muito conforme a localização):

Idade do edifícioParte do terrenoParte do edifícioO que você compra de verdade
Novo (0 ano)≈ 50 %≈ 50 %Uma casa prestes a se depreciar
10 anos≈ 60-65 %≈ 35-40 %Ainda há edifício a amortizar
20 anos≈ 75-85 %≈ 15-25 %Sobretudo terreno
30 anos ou mais≈ 90-100 %≈ 0-10 %Quase puramente o chão

O próprio vocabulário dos anúncios entrega essa realidade: um imóvel anunciado como furuya-tsuki tochi (古家付きtochi, terreno com casa velha) é vendido pelo preço do terreno, com a casa tratada como sem valor ou boa para demolição. Um sarachi (更地, terreno limpo) já foi liberado. Ler esses termos faz parte da arte de decifrar um anúncio imobiliário japonês.

Exemplo prático: dois imóveis, o mesmo preço, destinos opostos

Nada vale mais do que um exemplo com números. Tome duas casas vendidas cada uma por 30 milhões de ienes (≈ $192.000), compradas à vista, e compare o valor provável delas em 15 anos (~156 ¥/$).

CritérioImóvel A: subúrbio disputado de TóquioImóvel B: periferia em declínio
Preço de compra30 M¥ (≈ $192.000)30 M¥ (≈ $192.000)
Idade do edifício30 anos (madeira)5 anos (madeira)
Parte do terreno≈ 85 % → 25,5 M¥≈ 30 % → 9 M¥
Parte do edifício≈ 15 % → 4,5 M¥≈ 70 % → 21 M¥
Edifício em 15 anos≈ 0 (já amortizado)Muito depreciado → 3-6 M¥
Terreno em 15 anosEstável a +10 % → 26-28 M¥Em queda (despovoamento) → 7-8 M¥
Valor estimado em 15 anos≈ 26-28 M¥≈ 10-14 M¥

O mesmo desembolso, destinos opostos. O imóvel A já “purgou” sua depreciação: você comprou sobretudo terreno escasso, que se mantém. Dá para alugar como está, reformar ou demolir e reconstruir: o ativo de base continua sólido. O imóvel B, tentador por ser recente, vai perder a maior parte do valor conforme o edifício se desgasta e a população recua. É a demonstração mais concreta da regra terreno/edifício.

Antes de qualquer compra, calcule o seu próprio cenário com o nosso simulador de rentabilidade, e confira o peso real dos custos de compra (sempre no máximo 6 %) no seu orçamento de entrada.

O que a regra terreno/edifício muda na sua estratégia

Bem compreendida, essa lógica vira uma vantagem decisiva. Veja como usá-la.

Prefira imóveis “ricos em terreno”

Numa casa unifamiliar, procure uma parte de terreno alta em uma zona bem servida: você está comprando o ativo que se mantém. Um edifício antigo é moeda de negociação, não um defeito, desde que o chão seja bom.

Enxergue as akiya como jogadas de terreno

Muitas akiya (casas vazias) valem apenas o terreno. A pergunta certa nunca é “a casa é bonita?”, e sim “a localização do chão tem futuro?”. Uma akiya perto de uma estação ativa pode ser um excelente negócio de terreno; a mesma casa numa zona em despovoamento é uma armadilha.

Terreno limpo ou terreno com casa velha?

A demolição custa dinheiro (muitas vezes 1,5-4 M¥ para uma casa de madeira, ou seja, ≈ $9.600 a $25.600) e aumenta o imposto predial (o terreno limpo perde o abatimento “residencial”). Comprar um furuya-tsuki tochi e demolir por conta própria pode sair mais barato do que um sarachi já liberado. Nosso guia sobre comprar um terreno no Japão cobre zoneamento e restrições.

A exceção: concreto e localizações premium

Dois casos escapam em parte da regra. Primeiro, o apartamento de concreto (a mansion), cuja estrutura dura 47 anos e mais, e cuja parte de terreno em área central sustenta o preço. Segundo, as localizações ultrapremium (Ginza, Shibuya, centro de Kyoto), onde a escassez de terreno se sobrepõe a tudo. Esses ativos seguram o valor bem melhor, e são muitas vezes os perfis encontrados em Nossas pérolas, nossa seleção de oportunidades.

Erros comuns a evitar

  • Pagar caro por uma casa recente numa zona em declínio. O edifício novo vai se depreciar e o terreno também: perda dupla. É o imóvel B do nosso exemplo prático.
  • Acreditar que “o terreno sempre mantém o valor”. Verdade nas cidades tensionadas, falso no interior em despovoamento. Verifique a trajetória demográfica local.
  • Confundir depreciação fiscal com valor de mercado. O taiyō nensū é uma ferramenta contábil; o valor real depende da localização e do estado, não só da idade.
  • Pagar demais pelo “charme” de uma casa antiga. Se o mercado a avalia pelo preço do terreno, não pague pelo charme a preço de imóvel novo, a menos que seja um projeto patrimonial assumido.
  • Esquecer o custo da demolição. Ele pesa no orçamento de um projeto de reconstrução e desloca a equação terreno/edifício.
  • Esquecer a norma sísmica. Um edifício anterior a 1981 é descontado e difícil de revender: inclua isso no preço, como explicamos no guia sobre a norma de 1981.

Conclusão: compre o chão, não apenas as paredes

A regra japonesa é contraintuitiva para um comprador ocidental, mas libertadora depois de compreendida: o edifício se deprecia, o terreno faz o valor. Um preço não é um número único; é a soma de um ativo que derrete e de um ativo que dura. Seu trabalho como investidor é pagar o preço justo pelo edifício (muitas vezes perto de zero depois de 25 anos) e o preço certo pelo chão: mirando localizações cujo valor de terreno vai se sustentar.

Para transformar esse princípio em uma compra real, leia nosso guia completo para comprar no Japão, calcule seu projeto com o simulador, percorra Nossas pérolas e, se quiser um olhar bilíngue especializado sobre a divisão terreno/edifício de um imóvel específico, conheça nosso acompanhamento personalizado e nossos projetos anteriores.

Perguntas frequentes

Por que as casas perdem valor no Japão?

Porque tanto o mercado quanto o sistema tributário tratam o edifício como um ativo que se desgasta: apodrecimento da madeira, obsolescência sísmica a cada revisão do código e preferência cultural pelo novo. Uma casa de madeira está totalmente amortizada em 22 anos e depois não vale quase nada: você compra sobretudo o terreno.

O terreno valoriza no Japão?

Nas cidades tensionadas (Tóquio, Osaka, Nagoia, Fukuoka), sim: o chão é escasso e sustentado pela concentração urbana. No interior em despovoamento, o terreno pode se depreciar. O valor segue a acessibilidade: uma estação a 20-30 minutos e comércio por perto.

Por quanto tempo uma casa de madeira mantém o valor?

Em termos de mercado, o edifício de uma casa de madeira tende a zero entre 20 e 25 anos. O aço leve segura 30-40 anos, o concreto armado 45-60 anos. Passados esses limiares, a maior parte do valor está no terreno.

Comprar novo ou usado no Japão?

Para um investidor, o usado oferece mais valor: o imóvel novo perde 10-20 % na entrega e depois se deprecia. Um imóvel antigo bem localizado já se depreciou, e você compra sobretudo terreno que se mantém. Veja nosso artigo sobre novo ou usado.

O que é um terreno com casa velha (furuya-tsuki tochi)?

É um imóvel vendido pelo preço do terreno, com a casa existente tratada como sem valor ou boa para demolição. O termo sinaliza que você está pagando pelo chão. O terreno já liberado se chama sarachi (terreno limpo).

Como descobrir o valor do terreno de um imóvel?

Cruze três referências oficiais: o rosenka (valor do terreno por via pública, agência tributária), o chika kōji (preço do terreno publicado, MLIT) e o valor venal do imposto predial, que já separa terreno e edifício. O rosenka vale cerca de 80 % do preço de mercado.

A regra terreno contra edifício vale para apartamentos?

Em parte. Um apartamento de concreto (mansion) se deprecia mais devagar (estrutura de 47 anos) e inclui uma parte de terreno que, em área central, sustenta o preço. As localizações premium também seguram o valor bem melhor.

Fontes oficiais

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